O estudo intitulado Mapa da Violência 2006 – Os Jovens do Brasil, revela que a taxa de homicídio na Bahia caiu de modo dramático nesse período, passando a Bahia do 14º para o 22º lugar. Um pouco melhor só estão 5 estados, todos com população muito pequena como Tocantins, Piauí, Rio Grande do Norte, Maranhão e Santa Catarina. Nos demais estados a violência, predominantemente de jovens contra jovens, é até três vezes superior à da Bahia. Segundo o autor os dados mais surpreendentes se referem à cidade do Salvador que entre as capitais saiu do 6º lugar em 1994 para o 19º lugar.
Os campeões da violência são o Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo e Brasília, seguidos de Amapá, Alagoas, Paraná, Rondônia e São Paulo. Minas Gerais está em 12º, o Rio Grande do Sul em 15º e o nosso vizinho Sergipe em 18º.
O autor não tem explicação para a extraordinária virada da Bahia e, sobretudo da cidade do Salvador, um fato que só tem precedente em fenômeno semelhante que ocorreu em Nova York cuja criminalidade começou a cair drasticamente quinze anos depois da legalização do aborto. Os analistas da OEI provavelmente desconhecem o que foi feito na Bahia nos últimos vinte anos de ação do Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH). Aqui não foi necessária a legalização do aborto, mas em compensação houve uma vigorosa doutrinação da população no sentido de evitar a gravidez indesejada através do planejamento familiar iniciada por nós há mais de 20 anos e que dura até hoje.
Em janeiro de 1995, em artigo intitulado “Interiorização do Planejamento Familiar”, que publiquei na imprensa local e reproduzido no meu livro “O Descontrole da Natalidade no Brasil" eu dava conta do que tínhamos feito então para promover a prática do planejamento familiar sem apoio oficial. Visitamos todo interior do Estado pregando o uso de métodos anticoncepcionais e desmistificando tudo de negativo que diziam os opositores nos mais importantes municípios de um extremo a outro do Estado. De Mucuri no extremo sul a Rio Real no norte, do Recôncavo todo até Barreiras. Inauguramos uma unidade do CEPARH em Feira de Santana com a colaboração da Prefeitura e dos empresários que ajudaram a construir o CEPARH-Feira e que vem funcionando desde então sob a direção do Dr. Marcelo Esteve. Outras unidades fizeram o trabalho de implantação em Vitória da Conquista e Jequié. Algumas cidades foram visitadas repetidamente como Cruz das Almas, Santo Antonio de Jesus, Itabuna, Ilhéus, Paulo Afonso, Cachoeira, Santo Amaro, Riachão do Jacuípe, Serrinha, Jacobina e Porto Seguro. O importante mesmo foi a desmistificação da prática da contracepção até então condenada pela Igreja e pela esquerda radical.
Apesar da indiferença do Governo Federal pelo planejamento familiar, os sucessivos governadores do Estado colaboraram no que achavam que podiam através das Secretarias de Saúde depois que o caminho foi aberto pela intensiva pregação que fizemos. Em Salvador contamos com o apoio de alguns deputados e vereadores com especial destaque para o vereador Pedro Godinho que fez do planejamento familiar sua bandeira e promoveu o engajamento da Câmara de Vereadores de Salvador. A Prefeitura de Salvador, particularmente na administração Imbassahy, também ajudou, doando ao CEPARH um veículo, o CEPARH-móvel, que atende a periferia da cidade. Ao longo dos últimos vinte anos o CEPARH, através do seu trabalho assistencial, usando métodos eficientes de contracepção a maior parte desenvolvidos na própria Bahia, evitou a ocorrência de mais de 1 milhão de gravidezes indesejadas que contribuiriam para mudar as estatísticas de mortalidade materna e infantil, do aborto e do abandono das crianças que sem a proteção e assistência da família disputam a sua sobrevivência através da violência.
Há mais de vinte anos que tentamos apontar a redução da violência como uma das mais importantes conseqüências desejáveis do planejamento familiar. Aí está! Só lamento que Eric Loeff, que destinou a maior parte da sua fortuna à construção do CEPARH, não esteja vivo para saborear este momento em que colhemos os primeiros frutos da perseverança do nosso trabalho com os números frios que demonstram de maneira irrefutável os benefícios que o planejamento familiar está trazendo para a Bahia.